ENTRAMOS NO JOGO DA SEGUNDA VIDA: A experiência de um amor virtual

Atualizado: Jan 17



Heloisa Portugal



O distanciamento social imposto pela pandemia do Covid 19 trouxe à cena o amor digital, já conhecido de muitos internautas. O Ministério da Saúde Argentino, em abril de 2020, recomendou o sexo virtual como alternativa para manter o distanciamento social.


Entre perigos, mistérios e até mesmo fraudes, os relacionamentos virtuais assombram e também encantam. Em que pese o véu do anonimato típico nas redes sociais e ambientes de metaversos e games, são pessoas que “vestem” os personagens. Pessoas com dignidade humana.


Existe alguma forma de amor que não seja real? Vivenciar um relacionamento virtual significa que não é real?


A experiência de uma segunda vida recria e reveste de nova roupagem o amor platônico e transcende tudo o que se conhecia até hoje nos relacionamentos virtuais.


A intensidade dos sentimentos é marcada pelo verbo dito e repetido, presença, não raro, inexistente no que chamamos de vida real. O expressar dos sentimentos passa a ser mais direto e mais elaborado, o tempo ganha uma outra proporção na realidade do metaverso do Second Life, por exemplo.

Heloisa Helena de Almeida Portugal

Amar e vivenciar um relacionamento no Second Life difere muito do que tradicionalmente se conhece por namoro virtual em salas de chat ou softwares de conversação simultânea. Conversamos com várias pessoas no ambiente virtual do metaverso e surpreendentemente há uma necessidade e uma vontade de existir em outra vida.


A primeira diferença que se apresenta consiste nos objetivos, ou seja, em sites de chats tradicionais e agencias de namoros virtuais as pessoas querem e tem como perspectiva conhecer o seu interlocutor, já no Second Life esta pretensão passa a desnecessária e muitas vezes não incentivada.


Este aparente antagonismo justifica-se pela própria característica do jogo, a ser um teatro, espelhado na personalidade do indivíduo sim, mas todo o ambiente criado para uma segunda vida, uma vida simulada. Assim parte-se de uma realidade vivenciada para projetar os desejos, as aspirações e sonhos que se gostaria de viver. No Second Life vive-se.


Comece com a ideia de que só existe um mundo real e que ele é exatamente o que é, e nada, além disso. Então, de onde vem o ilusório, o irreal? O irreal pode surgir espontaneamente em sonhos e nos transportar e fazer sentir enquanto sonhamos. Mas, o irreal também pode resultar da representação, os seres humanos podem representar o mundo em sinais, linguagem e imagens. As artes plásticas, os filmes, as peças teatrais, músicas e outras expressões artísticas são estas representações.


Por este pensamento, vivemos sim em um mundo permeado de coisas e de representações de coisas. O passo seguinte para isso vem com a simulação por computador, que de forma parecida com a vida, recria experiências e ambientes. Isto nos faz pensar que, a princípio, a simulação dá poder ilimitado ao operador do teclado e o cérebro é bombardeado por estes estímulos. A criação de uma segunda vida proporciona estímulos e a realidade poderem ser então aquilo que você acredita ser real.


O cérebro pode confundir-se. Os relacionamentos vividos via ambiente virtual, muitas vezes, não nascem com a intenção de serem transportados para o ambiente não virtual, aspecto essencial de diferença entre os sites convencionais de namoro digitais e encontros. O Second Life é o palco de representações autorizadas e não menos reais para os sentimentos humanos. Sim, a simulação é, para todos os propósitos e intentos, fundamentalmente uma melhoria da realidade. Isto significa que simular a realidade não é apenas replicar a estrutura básica, mas também de fazer quaisquer arranjos para sincronizá-la aos nossos desejos.


Mas e se a vontade de se tocar? O toque, o contato físico é o que faz ser real?


As experiências afetivas vivenciadas no ambiente Second Life podem ser muito mais reais do que a vida real. Será? Nosso sentido de realidade pode estar diretamente relacionado aos nossos cinco sentidos e também, no caso dos relacionamentos, no outro. Chegamos à máxima da cultura ocidental: ver é crer. O que eu vejo é real. O que nos remete ao tato. Embora fique patente a atração e o carinho sentido pelos casais envolvidos no ambiente SL, tocar o outro concretiza sua existência. E tocar passa a ser a verdade, aquilo que posso ver, sentir e tocar é real.


A vontade de conhecer e tocar o outro aparece mais cedo ou mais tarde, a questão é como administrar isso. E ainda, é lembrar que estamos em um ambiente simulado e por isso temos controle, de ligar e desligar, de agir e não agir. O que difere o virtual do real é o controle de decidir.


Aqueles que sabem e tem consciência disso vivenciam a segunda vida onde ela deve estar, fora da realidade concreta. Isso é possível? Seria uma objetificação do ser? Para as pessoas usuárias do game, ter consciência do que significa o Second Life para si e para o outro, consiste no primeiro passo para os relacionamentos virtuais no metaverso. A vontade de conhecer o outro muitas vezes não faz surgir um desejo ou uma intenção de ter o mesmo tipo de relacionamento, mas por curiosidade de saber quem é o outro.


Inevitável a pergunta: Se estamos em uma Segunda Vida.... traímos na RL com o SL?


Como falar do Amor sem sua inseparável algoz a Traição... Ouso dizer que quem já viveu um amor também já viveu em algum momento uma traição. E a traição não deixa de existir porque é virtual. Traição é algo que acontece numa relação quando um dos envolvidos segue por um outro caminho e o outro fica desavisado.


Por certo que cada um que está lendo tem sua própria definição para traição porque este é um dos temas mais complexos quando falamos de amor. Mas, convido a pensar que não somos traídos apenas quando nosso parceiro se relaciona com outra pessoa estando namorando ou casado conosco. Somos traídos quando o compromisso e cumplicidade não são respeitados.


Mas o que seria a traição? O fato de ser uma simulação de realidade retira a possibilidade de haver traição, segundo a visão dos residentes. Muitos são casados na Real Life e quando iniciam sua Segunda Vida, entregam-se na vivencia de outro relacionamento. Muito interessante também é a presença de casais na Real Life que também o são na Second Life, mantém o vínculo também na realidade simulada. Mas a traição, e seu conceito também, é no Second Life uma questão de ética pessoal como uma maneira de suavizar o fato de estarem em um relacionamento digital apartado e escuso do relacionamento concreto.


E o amor? É Real?

Essa questão fica aqui sem resposta... um convite a reflexão.

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